Transumâncias e Desgénero

Sim.

Pegaram-te fogo muito cedo. Permanecias ainda envolto no líquido amniótico da mãe e já te marcavam a ferro com Palavras e sonhavam por ti: «Vai ser menina». Ou o Pai: «Vai ser homem e vai ser tudo aquilo que eu não fui capaz: vai ser o rei do mundo». Mas tu nunca quiseste ser rei de nada. Quando muito, rei apenas do palácio sagrado do teu corpo, casa da tua respiração. Só que o teu corpo nunca fui verdadeiramente teu – nasceu marcado, nasceu território onde outros, que não tu, decidiram as brincadeiras de que tu irias gostar, as tuas cores preferidas, as roupas que tu irias vestir. Até o frio e o calor que tu irias ter. Até o teu desejo sexual foi decidido por ti.

Mas tu aprendeste cedo a jogar às escondidas no reino dos espelhos quebrados a que, por ignorância, chamamos mundo e sociedade.

Aprendeste cedo a acender velas dentro do sangue e a fazer do teu corpo uma canção de protesto em carne viva contra o vento. A camisola quente insuportável que a mamã te fazia vestir era religiosamente posta no chão à entrada da escola e vestida somente no regresso a casa. E tiveste desejo e realizaste-o muito antes do que previram para ti. Por quem muito bem entendeste.

Nas coisas do amor nunca olhaste para trás, nem pensaste duas vezes.

(a vida é demasiadamente curta para não sermos felizes)

Aprendeste cedo a misturar a tua cara com terras e rosas. Brancas e amarelas, dedo mindinho e dedo polegar.

Não há cara que não termine em máscara, a não ser que alguém a toque. Delicadamente. Masculinamente. Femininamente. Humanamente. Assim.

Hamlet deveria ser interpretado por uma mulher.

A Bovary, por um homem.

O Dom Quixote, por um Santo.

Nunca te fez confusão gostares dos jogos duros do apanha e da bola e, ao mesmo tempo, gostares de dormir com peluches fofos (ainda hoje recordas o aconchego do peito de lã onde escutavas o coração meigo da infância bater, o coração animal das coisas verdadeiramente doces) e brincares com as bonecas (as loiras, sobretudo essas) da Irmã.

Ah, que loucas aventuras tiveste, tu e a Barbie…

Tiveste brincadeiras impróprias com meninas e meninos. Mas o pior foi descobrirem que gostavas de escrever. «Poesia? Isso é coisa de maricas e de doidos.».

Pois sim. Isso é coisa de bicho; de caracol do mar, de tigretigresa das montanhas.

Dos que amam trazer o sacro labirinto às costas- como casa e identidade.

E a Vida é mesmo assim: um prego e outro sobre o coração. O nome pesa. Os nomes pesam. Maria, Luís, Joaquim, Eduarda. Os nomes sangram. São teias onde os antepassados escorregam. São cordas onde mãos invisíveis tocam a harpa e o incêndio.

Agora és isto. És aquilo. Vá, entra na fila para morreres. Estuda, casa, sê homem, ganha o pão com o suor do rosto e do coração. Sê mulher – obedece. Hoje podes ter um emprego – um emprego de mulher. Podes ser chefe – intermédia, claro. Mas cozinhas, tratas dos filhos e do marido. Obedece. Senão levas porrada. Ah, pois. A lei protege-te, mas o mundo não! E o senhor juiz nunca irá condenar a besta do teu marido que te pôs no hospital. Nunca, minha cara… És o que foste ontem – escrava. Trabalhas hoje como nunca. E quem te paga? Quem te paga, mulher, o coração queimado dia-a-dia?

Puseram-te fogo há milénios. És mulher, obedece. És homem, sê bruto.

E se não fores assim – à força – o mundo põe-te na linha, formata-te; quando dás por isso, és um clichê. És mais um. Agarrado à barriga da tua companheira: «Vai ser um rapaz». E não escutas, nunca escutas o que verdadeiramente acontece sempre que nasce um novo ser humano.
Uma história irrepetível feita de Palavras novas,

– ardentes e puras; sem género.

Sim.

Luís Carlos S. Branco

Arte de Dançar | Foto: Sarah Miles/SXC